Qual o preço do seu sono?

O dia de minha posse no banco, em 26.03.1981, foi um dia marcante em minha vida pois fui apresentado a diversas coisas um pouco diferentes das que conhecia até então, contribuindo significativamente para meu aperfeiçoamento como pessoa.
Vindo de uma família simples, logo ao primeiro dia fui surpreendido no almoço da cantina, pois fui acostumado desde tenros anos que apenas um garfo era suficiente para me alimentar e que aquelas tradicionais “facas sem ponta” eram coisas que só atrapalhavam à mesa. Desde aquele dia, nunca mais conseguir realizar uma refeição feliz caso não tivesse as tais facas inúteis à mão, pois entendi quão perfeitamente elas substituíam o polegar da mão que não segurava o garfo. 🙂
Diversas outras novidades se apresentaram: minha experiência de vida e profissional ainda era um esboço simples, com pouca informação e muita expectativa. Ainda não entendia bem o conceito de dinheiro, de comércio, de atendimento, de satisfação, e muita coisa interessante.
Em contra-partida, levei comigo naquela empreitada, alguns “valores” aprendidos pelo exemplo de minha família, voltados para o bom relacionamento com os colegas, o empenho em fazer bem-feito, a disponibilidade para ajudar aqueles que precisavam de ajuda, o respeito pela coisa alheia e que ao longo dos anos foram solidificados pelo contato com inúmeras pessoas que dispunham de idéias e pensamentos análogos (ou não) aos que eu catalizava ao longo dos anos.
Cerca de nove anos depois, chegou minha vez para ser promovido a caixa-executivo, e naquele tempo, principalmente em agências de grande porte, com mais de 250 funcionários, existia uma “fila” para isso e penso que nunca cheguei a notar algum “superdotado” sendo carregado para o primeiro lugar, o que até então considerava normal.
A partir daí a coisa mudou, principalmente porque o salário se destacava nas funções superiores e os primeiros traços de disputa “limpa” ou “suja” pelas vagas tornaram-se mais frequentes e muitas vezes frustrantes.
Com o passar dos anos e da evolução do pensamento profissional, foram implantadas regras e scores que teriam a função de oferecer maior transparência ao processo de ascensão profissional e isso facilitou a vida de muita gente, desde que fosse para cargos intermediários de caráter operacional. Para cargos de gestão, o fato de que a avaliação do gestor estava atrelada ao resultado médio da equipe sob gestão ou de uma determinada carteira, fazia com que as nomeações estivessem sujeitas ao crivo pessoal do nomeador/superior imediato, ainda que sujeita ao atendimento dos critérios normativos definidos para o preenchimento da vaga.
Também no sentido de resguardar os resultados esperados, foram estabelecidos critérios que permitiriam avaliar o desempenho de cada gestor e substituí-los quando “necessário”. Digo necessário, porque também nesse caso o critério subjetivo do avaliador poderia servir como fator decisório à eventual manutenção ou substituição do gestor, nos casos em que o score fosse insatisfatório. Pode parecer cruel, mas trata-se de regra que todo o mercado aplica à gestão de suas equipes e, portanto, é vista como coisa comum.
Entre os vários riscos que penso possam ser identificados nesse modelo, o uso inadequado do critério subjetivo para nomeações, associado à alta rotatividade dos gestores é um dos mais explosivos pois facilita a “escalada das tartarugas ao topo dos postes” e a descontinuidade do vínculo dos “nomeadores” à performance dos “nomeados” em curto prazo.
Apesar de as instituições financeiras continuarem obtendo margem de lucro bastante superiores aos demais segmentos de atividade, seja industrial, comercial ou de serviços, os prejuízos advindos dos riscos inerentes à fragilidade no processo de composição da carteira de gestores tornam-se cada vez mais impactantes nos resultados globais.
A revisão desse processo é complexa e acredito que ninguém esteja disposto a assumir a responsabilidade por uma mudança de tal porte, mesmo porque grandes feridas podem ser abertas e é mais provável que o médico morra durante a cirurgia, enfim, isso não vai adiante.
Mas voltando ao início, fica minha sugestão para que cada um ofereça o melhor de si, para sua família, para seus colegas, para seu empregador, pois são muito grande as chances de que essa atitude proporcione uma vida feliz e repleta de boas realizações, Particularmente ainda penso que “meu sono não tem preço!”
Um ótimo final de dia a todos!!

Deixe uma resposta